Um Desatar de Nós

Em ano de Copa do Mundo e Eleições, foi inevitável ver a desaceleração da nossa economia e perceber que estamos passando por momentos de instabilidade no Brasil. Muitos projetos foram postergados para 2015, por não haver uma visão clara da economia e política, o que afeta o desempenho em diversos setores. Além disso, os índices de confiança e análises de empresas de rating colocam o Brasil em perspectiva negativa, o que, naturalmente, resulta em uma redução dos investimentos no país.
Pela primeira vez nas últimas eleições, temos uma situação econômica pior ao final do mandato presidencial. Com tantas especulações, o mercado torna-se negativo e o desafio do novo presidente será recuperar a credibilidade para então fomentar investimentos em infraestrutura e permitir o aumento da competitividade industrial.

A estratégia econômica atual foca no mercado de consumo doméstico, beneficiando alguns segmentos com incentivos fiscais e dificultando as importações. Mas com a indústria brasileira mais fechada, perde-se competitividade ao deixar de se atualizar e desenvolver. Quanto menos a economia está inserida na cadeia global, menos eficiente é a indústria. Nos últimos anos a indústria no Brasil apresenta estagnação e gargalos de produção e distribuição, resultando no aumento significativo do índice Custo Brasil.

Os controles da inflação e das contas públicas foram fundamentais para que o Brasil se desenvolvesse nos últimos anos e são conquistas que não podem ser perdidas, tornando-se o grande desafio para quem se eleger presidente.

Mas e o mercado de seguros?

O mercado de seguros tem sido afetado naturalmente pela desaceleração da economia, porém, em um grau menor do que outros segmentos, exceto os seguros diretamente ligados a infraestrutura e obras de engenharia.

Acontece que o mercado segurador, assim como qualquer mercado, precisa da estabilidade da moeda e da economia para continuar se desenvolvendo. Quando consumidores e empresários conseguem se planejar, os seguros são vistos automaticamente como alternativa de proteção do patrimônio e do investimento.

A melhor distribuição de renda, ocorrida nos últimos anos, fez com que alguns mercados de seguros, como o de vida, previdência privada, seguro residencial, automóvel, prestamista, entre outros, ganhassem força e sustentação.

Caso a economia retome o crescimento e o acesso a bens de consumo e bens duráveis pela classe média volte a crescer, os seguros relacionados a estes bens continuarão se desenvolvendo.

O Brasil precisa voltar a ter credibilidade

Por outro lado, os seguros de grande porte dependem ainda mais da retomada da economia e dos investimentos estruturais. Com o recuo da atividade econômica na indústria e infraestrutura, seguros de Riscos de Engenharia, Energia e Garantias de Performance, sofrem por consequência. Outro ramo que sente o efeito da desaceleração é o de seguro de Transportes de carga, que tem apresentado decrescimento do faturamento em consequência da redução dos embarques de bens e produtos.
O Brasil precisa voltar a ter credibilidade, com estratégias políticas e econômicas claras e com um plano de crescimento sustentável para o médio e longo prazo. O atraso de projetos urgentes é preocupante, mesmo nos casos em que os seguros não são atingidos diretamente.

Se a indústria voltar a investir e as obras de infraestrutura finalmente acontecerem, podemos esperar um cenário melhor do que o atual. As Parcerias Público-Privadas (PPPs) e as concessões são fundamentais para o crescimento do Brasil, favorecendo diretamente o setor de seguros. Para isso, o modelo atual de concessões precisa ser melhorado, garantindo segurança jurídica e retornos adequados para tornar o Brasil atrativo para os investidores.

O mercado de seguros brasileiro também deve desenvolver novas soluções para as PPPs, utilizando como referência produtos que já existem no mercado internacional. São seguros mais complexos, considerando os diversos interesses e necessidades dos stakeholders (investidor, concessionário, governo), com um clausulado que identifique as particularidades dos contratos e o modelo da parceria. Hoje no Brasil, os produtos ainda são muito tradicionais, pouco inovadores e limitados em termos de coberturas.

Apesar do cenário adverso, os níveis de retorno aqui ainda são superiores ao de muitos países, garantindo o interesse de investimentos privados no Brasil. O novo presidente deve priorizar mais e melhores investimentos em infraestrutura para que o Brasil volte a ser competitivo. Precisamos de um ambiente regulatório estável, sem mudanças súbitas de regras, que estabeleça as diretrizes para direcionar e incentivar os investimentos, sem interferir no mercado diretamente. Esse é um nó que precisa ser desatado no próximo governo.

 


Luciano Calheiros

Luciano Calheiros

Luciano Calheiros é Engenheiro civil formado pela escola politécnica da USP com mais de 19 anos de experiência no mercado de seguros e resseguro. Já atuou no Grupo Allianz, na Zurich Seguros e na Liberty Seguros. Foi diretor da ABCSI (Associação Brasileira das Companhias de Seguros Internacionais) e membro do Comitê de Resseguro da CNseg e Fenseg. Atualmente, Luciano Calheiros assume o cargo de Deputy CEO da Willis Brasil.

 

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