Setor aeronáutico vive fase de crescimento no Brasil

O setor aeronáutico está em franco crescimento no Brasil e a previsão é que o País seja o 3º mercado de aviação até o ano de 2017, logo atrás dos EUA e da China, segundo a IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo).

Em análise ao panorama do mercado nacional, Cristina Raposo, diretora executiva da Willis Towers Watson Brasil, fala sobre o aumento da exposição ao risco, ataques cibernéticos, e a relação da mudança climática com o setor. Confira estes e outros destaques de entrevista concedida à revista Segurador Brasil, no mês de março.

Mercado nacional de seguros na esfera aeronáutica
A cada ano, desde a abertura do mercado de resseguros em 2008, mais e mais companhias seguradoras internacionais passaram a operar no Brasil, fazendo com que a oferta de produtos tenha se diversificado e a maior concorrência tenha trazido benefícios para os consumidores com as reduções de prêmios, muito em linha com o ambiente internacional de “soft market” resultante da grande capacidade disponível. Não se sabe por quanto mais tempo este “soft market” resistirá, pois a última alta de taxas internacionais se deu em 2001, quando da tragédia das Torres Gêmeas. Os sinistros pagos pelos acidentes com Linhas Aéreas têm superado os prêmios arrecadados pelos Seguradores internacionais, que têm alegado que a alta é uma questão de tempo.

Portanto, este momento continua sendo benéfico ao consumidor que pode, pela concorrência existente, adquirir seus seguros aeronáuticos a custos mais baixos. Sobre o volume de prêmios no Brasil, mesmo com a queda das taxas, houve um aumento da arrecadação de prêmios, mas que se deu em função da alta do Dólar Americano que é a moeda que rege os prêmios de resseguro. Os Prêmios Emitidos com apólices aeronáuticas no Brasil passaram de R$ 315.990.000 em 2014 para R$ 471.590.000 em 2015.

Crescimento x exposição ao risco. Como é possível equilibrar essa relação?
De acordo com a IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo), o setor aeronáutico está em franco crescimento no Brasil e a previsão é que este País será o 3º mercado de aviação até o ano de 2017, logo atrás dos EUA e da China. Sem dúvida, o crescimento do setor gera o consequente aumento no número de aeronaves em operação, podendo resultar em problemas ambientais (como a dependência do petróleo e emissão de gases com efeito estufa) e concentração de risco (pelo congestionamento e necessidade de infraestrutura).

Certamente, a modernização de tecnologia é a forma mais eficiente para o equilíbrio deste panorama. O Brasil tem investido na modernização da frota e nos processos de produção de combustíveis, pelas políticas de redução de gases poluentes, como a geração de matéria-prima para o Diesel Verde, por exemplo.

O aumento de ataques cibernéticos, a confiança excessiva na automatização e o crescimento do uso de drones colocam em risco a gestão de segurança das companhias?
Os ataques cibernéticos são, em sua maioria, por tentativas de exclusão de arquivos, vazamento de dados, derrubada de redes de computadores ou mesmo por manipulação de equipamento por meio de um controle, entre outros. Neste aspecto, assim como no risco de drones em áreas de operação de aeronaves, tanto a Força Aérea, Operadores de Torres de Controle e Companhias Aéreas têm suas próprias medidas corretivas e preventivas. Na Holanda a polícia tem treinado águias para capturar drones ilegais em pleno voo e esta prática no Brasil poderá ser adotada, uma vez se comprove a eficiência da experiência na Holanda.

No momento, a SAC (Secretaria de Aviação Civil) tem trabalhado na legislação que regulamenta a operação de drones para uso comercial no Brasil (os drones recreativos serão enquadrados na categoria de aeromodelos). Esta regulamentação a ser determinada pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) estabelecerá, em breve, as principais diretrizes da legislação.

É sabido que os custos da aviação continuam subindo em função da procura por novos tipos de materiais na produção de aeronaves. De que maneira esse fator impacta no preço do seguro?
O material utilizado na produção das aeronaves seguem normas, tanto dos Fabricantes das aeronaves, quanto das Autoridades Aeronáuticas e não estão diretamente relacionados ao preço do seguro, que é muito em decorrência do resultado de mercado (prêmios arrecadados X sinistros pagos) e da performance/experiência do operador.
Por outro lado, é natural que o equipamento mais moderno e de maior valor tenha uma taxa de seguro Casco inferior às atribuídas aos equipamentos mais antigos e de menor valor.

As mudanças climáticas que se verificam em todo mundo podem acarretar maiores níveis de turbulência. Esse fenômeno é considerado um risco em potencial?
A turbulência faz parte do voo e no mundo da aviação há quem diga que fazem parte do céu como as ondas fazem parte do mar; as correntes de ar se comportam da mesma maneira que na água, naturalmente com efeitos diferentes.

Pilotos e controladores trocam informações constantemente sobre a situação da rota e buscam os desvios necessários para a melhor segurança. Não há instrumentos específicos para detectar as áreas de turbulência, salvo o sistema de “Predictive Windshear (microbursts)” que só está disponível próximo ao solo. Os voos contam com os radares meteorológicos dos aviões que capturam gotículas de água ou gelo presentes nas nuvens e fornecem o panorama para o piloto, que tomam as devidas providencias para a segurança do voo.

Como é possível manter a qualidade operacional da tripulação numa atividade que provoca grande estresse?
A OACI – Organização de Aviação Civil Internacional (ou em inglês, ICAO – International Civil Aviation Organization) em seu anexo 6 – Operações de Aeronaves apresenta o termo fadiga como sendo: “Um estado fisiológico da reduzida capacidade de desempenho mental ou físico resultante da perda de sono ou a vigília estendida e/ou atividade física que pode prejudicar a atenção de um membro da tripulação e capacidade de operar com segurança uma aeronave ou desempenhar funções relacionadas a seus deveres.”

As questões de Fadiga de Pilotos que sempre foram objeto de grande preocupação e providencias dos “Safety’s” das empresas aéreas, foram intensificadas desde o desastre que matou 150 pessoas pelo piloto que jogou o avião contra as montanhas. Acredita-se que a atenção aos sinais de depressão, melhor treinamento, agenda que permita aos Pilotos o descanso adequado, e tantos outros fatores, possam minimizar o risco e manter qualidade de segurança. Porém, a questão é muito mais complexa, pois trata de fator humano e psicológico de cada indivíduo e merece a melhor atenção.

Na esfera do direito privado no Brasil, o que se poderia avançar em termos de melhora na qualidade do serviço de transporte aéreo?

O Código de defesa do consumidor, o Código Brasileiro do Ar e os tratados internacionais relacionados à matéria, garantem ao consumidor brasileiro a proteção necessária frente aos problemas com a prestação do serviço aeronáutico. O foco não deve ser a criação de mais leis que forcem as companhias aéreas a melhorar a prestação do serviço, e sim ações do Governo que incentivem a modernização tecnológica do setor, o que inevitavelmente promoveria uma melhora significativa na qualidade da prestação do serviço oferecido hoje para os consumidores brasileiros.

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